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29 de novembro de 2018

Orações na Arca

No último dia 18, acordei com o ímpeto de rever e terminar a tradução do ciclo de poemas de Carmen Bernos de Gasztold. Já havia visitado sua Arca em 1992 e em 2013, mas faltavam a Oração de Noé e quatro outros animais, como a Cotovia, a Abelha, ea Cabra e a Pomba. Outros cinco estavam guardados: o Leitão, os Patinhos, a Coruja, o Corvo e a Pomba.

Aora entrego todos os 27 poemas em uma plaquete com 36 páginas, com ilustrações em silhueta. Em 2019, comemora-se o centenário de nascimento de Carmen Bernos de Gasztold (1919-1995).


E assim vamos terminando o ano rumo a dois eventos de publicação independente: a PrintA-Feira II, no Sesc 24 em São Paulo, e a Feira YOYO: tudo que vai, volta, no Sesc Taubaté, nos dias 8 e 9 de dezembro.

Leia abaixo 15 poemas de Orações na Arca, com desenhos feitos com giz pastel seco e oleoso. E espie também como ficou a edição ilustrada com silhuetas (2 no Telhado).

6 de janeiro de 2014

Oração da Borboleta


Onde eu estava...
exatamente? Senhor!

Ah! Sim, esta flor, este sol,
obrigada! Vossa criação é tão bela!
Este perfume de rosa...
Onde eu estava... exatamente?

Uma gota de orvalho
pérola de alegria no coração de um lírio!
E eu preciso ir...
Aonde... Eu não sei!
O ventou soprou
em minhas asas as suas fantasias!

Fantasias...
Onde agora estou?

Ah, sim, Senhor,
eu apenas queria vos dizer:
Obrigada, muito obrigada!

Amém!



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


4 de janeiro de 2014

Oração do Pequeno Potro


Meu Deus, a grama é tão verde!
Meus cascos tão cheios de pinotes!
Por que, de repente,
este medo dentro de mim?

Eu corro
e minha crina se enrosca ao vento!

Eu corro
e os perfumes agitam meu coração!

Eu corro
e tropeço
de alegria
nas minhas próprias pernas,
e recolho com os meus olhos,
meus grandes olhos
brilhantes,
a inquietude
que move o mundo todo...

Deus de bondade,
quando vir a estranha noite
cavalgando as dobras da tarde,
ouça-me o rincho triste!
Acenda uma estrela
para vigiar meus passos
e silenciar meu medo.

Amém.



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


2 de janeiro de 2014

Oração do Galo



Não se esqueça, Senhor,
sou eu quem faz o nascer sol!
Eu sou o Vosso servo!
Mas a dignidade de minha tarefa
obriga-me a certa pompa e...
Circunstância!
Noblesse oblige...
Contudo, continuo ser
o Vosso servidor.
Somente não se esqueça...*
Senhor,
com o meu canto,
EU faço o Sol nascer!
E que assim... Sempre seja!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.

* N.T. O galo é tão metido! Nem se dá conta que tropeça na língua e mistura as conjugações verbais. O correto é dizer: "Não vos esquecei, Senhor!"


31 de dezembro de 2013

Oração do Velho Cavalo


Vede, Senhor,
meu casaco já em farrapos,
um velho surrão batido!
Todo o entusiasmo da vida
e todas as minhas forças
entreguei ao trabalho árduo,
sem nada guardar comigo.

Neste momento,
curvo minha pobre cabeça
sobre o peito solitário! 

Deus Misericordioso,
a Vós achego-me
com minhas pesadas pernas:
sou enfim um servo inútil...

Que Vossa bondade,
reserve a mim a morte
suave e breve,
amém!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


29 de dezembro de 2013

Oração do Grilo


Bom Deus,
sou pequenino e retinto
porém, agrecido me sinto
por Vós terdes espalhado,
sobre a humilde vida que levo,
o calor do sol
e o farfalhar de ouro do milharal...

Recebei, indulgente,
o pobre impulso do meu amor
nesta nota musical
que o Senhor faz jorrar de meu coração!

Amém.


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


27 de dezembro de 2013

Oração do Passarinho


Bom Deus,
eu não sei bem como rezar
sozinho!
Mas, por favor,
protege da chuva e do vento
meu ninho.
Derrama o orvalho
nas flores e sementes abundantes
em meu caminho.

Faze mais fresco o azul
e os ramos mais brandos...
E deixa
Tua doce Luz por mais tempo no céu,
enche meu coração de Tua Música
para que eu possa
cantar,
cantar,
cantar...

Eis o que peço, bom Deus,
assim seja!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


25 de dezembro de 2013

Oração do Burrinho



O Deus, que me obrigou
a caminhar pelas estradas
sempre,
a carregar pesadas cargas
sempre,
a sofrer infatigavelmente
sempre!
Dá-me doçura e coragem!

Faça, um dia, entenderem -
qu'eu não quero mais chorar
por não conseguirrr dizer o que desejo
enquanto ouço zombarem de mim!

Faça, um dia, eu encontrar
um róseo e saboroso cardo -
e possa ter o tempo para colhê-lo.

Faça ainda, Senhor,
ver outra vez meu querido irmão
no presépio de Natal.

Amém.




Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


23 de dezembro de 2013

Oração da Girafa


Oh 
Senhor,
eu vejo 
o mundo 
de cima,
mal consigo 
me acos
tumar com 
as coisas 
miú
das!
 
Ou
vi
dizer
, porém,
que
Vós
amais os 
humildes... ?
Dizei-me é mentira!
É mais fácil crer
na Sua grandeza...
 
Eu me alimento
de ideias elevadas 
e gosto tanto tanto
de me ver perto,
bem perto
de Vosso céu!
 
Humildade!
Dizei-me...
O que é isso, Senhor!
Assim seja!



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


21 de dezembro de 2013

Oração da Tartaruga


Paciência,
bom Deus!
Eu já estou
chegando!    

Aceito a natureza
tal como ela é!
Não pretendo criticar
a casa que carrego comigo!
Quanta comodidade!
Mas o Senhor há de concordar
é bastante pesada...

Ah, meu bom Deus, 
peço que jamais se faça 
impenetrável esta couraça,
a minha casa, o meu coração
para o Senhor!
 

Amém.


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


19 de dezembro de 2013

Oração do Peixinho Vermelho


Bom Deus,
eu giro, giro, giro sem fim
neste aquário transparente e frio
sem conseguir encontrar meu próprio caminho!

Ai, Senhor,
livrai-me deste confinamento d’água
e das visões terríveis que através dela
eu vejo!
Dai-me a liberdade das correntes
e das límpidas fontes.
Fazei que eu não seja apenas 
um peixinho
v e r m e l h o
em sua prisão de vidro, mas
uma centelha viva
na mansidão dos regatos!
Que assim seja!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.
Ah, outra versão consta no livro de 2018, como Oração do Peixe-Dourado.


17 de dezembro de 2013

Oração do Grande Elefante


Meu Deus,
aqui é o Elefante,
vossa criatura,
que Vos fala...

Quanta vergonha tenho
do meu tamanho, mas realmente
não é minha culpa se meus pesados pés
devastam Vossa floresta.

Ensinai-me
como agir com prudência
e pensar como um filósofo
de modo a manter sempre
minha dignidade, meu equilíbrio,
apreciando, por onde eu for,
a leveza das coisas...
Amém.



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


15 de dezembro de 2013

Oração do Pirilampo


 
Oh! 
Amado Deus,
o Senhor se importaria
em deixar mais longe um pouquinho
Sua Luz do meu caminho?
É que sou uma lasca de brasa no meio das cinzas
e necessito de Sua Noite imensa tanto, tanto
para meu coração tremeluzir 
um instante sua pequenina estrela: 
é a Esperança que levo a outros corações
como uma fagulha 
de alegria.
Amém.



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.
Outra versão do poema é apresentada na edição de 2018.


13 de dezembro de 2013

Oração do Cachorro



Senhor,
continuo de olho!
Se aqui eu não estivesse,
quem guadaria a casa dos homens?
Quem vigiaria suas ovelhas?
Quem estaria... por perto?
O Senhor e eu, ninguém mais,
compreendemos
o que é lealdade!

Eles falan assim:
"Cão fiel! Cão corajoso!"
Ah, meras palavras...
Sei que me apego aos afagos
e aos ossos que me atiram
e pareço satisfeito!

Eles realmente acreditam que sou feliz!

Quantos pontapés, au,
igualmente eu recebo!
Não importa.
Estarei sempre por perto...

Senhor,
não me deixe morrer
longe de meus velhos amigos,
antes mesmo de todos
os perigos, vencer!
Auuumém!




Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


11 de dezembro de 2013

Oração da Gata



Senhor,
sou eu a gata!
E não há exatamente nada
que eu queira pedir...
Não!
Nada peço a ninguém!
Mas se o Senhor tivesse, por acaso,
lá nos recônditos do céu
um rato branquinho
ou um pires de leite...
Sei de alguém que saberia saboreá-los.

A propósito,
num desses dias,
o Senhor não amaldiçoaria
todos os cães do mundo?
Porque aí, sim... eu diria
que assim seja!



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


9 de dezembro de 2013

Oração do Rato

Eu vivo o mundo sozinho
Espreitando através das frestas...

Eu sou tão cinza,
ó Deus amado!
O Senhor se lembra de mim?
Sempre perseguido,
sempre acuado.
E a miséria mordisca do meu lado
o vazio que me enche o prato...
Por que maltratam
um rato assim?
Meu criador não é o Senhor?

Quero ficar bem escondido,
dê-me a migalhaa que me livra da fome,

longe das garras
daquele demônio 
de olhos verdes.
 

Amém!

Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


7 de dezembro de 2013

Oração do Boi




Meu Deus, dê-me tempo!
Os homens andam muito apressados!
Faça-os entender que não posso ir
tão depressa...

Dê-me tempo para comer...
Dê-me tempo para caminhar...
Dê-me tempo para dormir...
Dê-me tempo para pensar...

Aaaaaamém!




Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


P.S. Há 20 anos quem deu voz a esse Boi foi Paulo Goya que, a propósito, domingo 8 de dezembro participa das eleições para o Conselho Participativo Municipal de São Paulo, vote 82.061.

6 de dezembro de 2013

em tempo de comunhão


Em 1992, fiz um programa de rádio para a série Opus Um, chamado Em tempo de comunhão, na Rádio Cultura FM de São Paulo, apresentando uma peça musical de Frieder Meschwitz (1936-1983) – A Prece dos Animais (Tier-Gebete). Meschwitz tomava de empréstimo os versos do livro Orações na Arca (1919), de Carmen Bernos de Gasztold, sobre quem bem pouca informação conseguimos recuperar na época. O encarte do CD com a gravação de Elena Bashikirova (voz e piano) e Gidon Kremer (voz), em alemão, foi traduzido inicialmente por Carla Koch e fiz as adaptações que me pareceram interessantes para a composição do roteiro que assim começava:
Foi um dia, um dia foi...
Quando os animais falavam,
eles se reuniram e se dirigiram ao Criador.
Cada bicho com um prece no coração. 
Agora, a memória viajou de volta no tempo e voltou encontrando os poemas na língua original, em francês, e traduções para o inglês e também em português, realizadas por Carlos Drummond de Andrade. Porém, em doze ou quinze postagens, arrisco-me a versejar as orações a meu próprio modo... Que assim seja!