TAMERLÃO, de Edgar Allan Poe
Versão integral de 1827, com notas do autor
Tradução de Peter O Sagae
Tamerlane, Tamerlano, Tarmelán ou Tamerlão são as variações latinizadas em inglês, italiano, espanhol e português do nome Timur Lenk, o conquistador turcomano do século XIV que reuniu sob o seu controle grande parte das terras da Ásia Central. Reconhecido em 1370 como Imperador, Tamerlão teve forte presença histórica; não à toa, imaginava-se como restaurador do Império Mongol de Gengis Khan e costumava dizer de si mesmo seu herdeiro; escolheu a suntuosa cidade de Samarcanda (no atual Uzbequistão) como a capital do Império Timúrida.
Sem qualquer pretensão de realidade ou exatidões de geografia, como se observa nas notas do autor à primeira edição de Tamerlão, o poema é totalmente uma peça ficcional. Edgar Allan Poe faleceu aos 40 anos, em Baltimore, no dia 7 de outubro de 1849.
DOBRAS DA LEITURA
Lançamento: Goiânia, Feira e-cêntrica 2019
Mais informações no wwww dos 2 no Telhado!
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19 de janeiro de 2019
4 de abril de 2014
SONHOS
Edgar Allan POE / Peter O'sagaE *
Oh! Minha jovem vida é um sonhar incessante!
Meu espírito não despertou à luz do instante
De uma Eternidade que venha a aurora dispor:
Sim! Apesar do longo sonho verter em desespero e dor,
Melhor o sonho que a dura realidade
Da vigília por viver — por quem seu coração arde,
E sempre assim, sobre a terra ternamente,
De antigas paixões — um caos revivescente!
Todavia, por que não — este sonho sem fim
Permanecer — como todos os sonhos para mim
Em minha vida de criança — e assim permanecer
O que era ingênua espera pelas delícias do Céu!
Quando branco sol que eu tinha me afagava
No azul do verão; nos campos de luz eu sonhava,
E distraidamente lá abandonei meu coração
Tão além — no calor da imaginação
Em minha própria casa, com os seres do espaço infinito
Do meu pensamento — o que mais tenho visto?
Era uma vez e somente uma vez a hora a correr
De minha selvagem lembrança — e algum poder
Ou encanto a me prender — era o frio vento
Vindo atrás de mim e no meio da noite esquecendo
Sobre meu espírito a sua imagem, ou a lua em romaria
Que brilhava e acendia em meu sono o meio-dia
Tão friamente — ou as estrelas — era entretanto
Um noturno alento o sonho que passou por encanto.
Fui feliz — mesmo ainda em sonho.
Fui feliz — e amo tudo o que proponho —
Sonhos! Em suas cores tão cintilantes de vida —
Assim como no nevoeiro fugaz da misteriosa intriga
Da semelhança que traz com a realidade
As coisas mais lindas que o olho invade
Do amoroso Paraíso – e tudo o que nos pertenceu!
A Esperança que a alegre hora jamais compreendeu.
* Um dos primeiros poemas de Edgar Allan Poe, escrito e revisto entre 1827-1828, que me faz pensar noutras cores para a sua juventude. Os versos apresentam aquele quê de pessimismo romântico, mas hoje tão leve, mais a saudade de algo que parece não pertencer a nenhum momento, parte da presente vida... E há um idealismo mágico de criar paisagens dentro da mente, com o mesmo olhar que tem a infância. É o que arrisco... neste mês de abril. Imagem: Retrato de Edgar Allan Poe, por John A. McDougall, miniatura em aquarela c. 1846.
Oh! Minha jovem vida é um sonhar incessante!
Meu espírito não despertou à luz do instante
De uma Eternidade que venha a aurora dispor:
Sim! Apesar do longo sonho verter em desespero e dor,
Melhor o sonho que a dura realidade
Da vigília por viver — por quem seu coração arde,
E sempre assim, sobre a terra ternamente,
De antigas paixões — um caos revivescente!
Todavia, por que não — este sonho sem fim
Permanecer — como todos os sonhos para mim
Em minha vida de criança — e assim permanecer
O que era ingênua espera pelas delícias do Céu!
Quando branco sol que eu tinha me afagava
No azul do verão; nos campos de luz eu sonhava,
E distraidamente lá abandonei meu coração
Tão além — no calor da imaginação
Em minha própria casa, com os seres do espaço infinito
Do meu pensamento — o que mais tenho visto?
Era uma vez e somente uma vez a hora a correr
De minha selvagem lembrança — e algum poder
Ou encanto a me prender — era o frio vento
Vindo atrás de mim e no meio da noite esquecendo
Sobre meu espírito a sua imagem, ou a lua em romaria
Que brilhava e acendia em meu sono o meio-dia
Tão friamente — ou as estrelas — era entretanto
Um noturno alento o sonho que passou por encanto.
Fui feliz — mesmo ainda em sonho.
Fui feliz — e amo tudo o que proponho —
Sonhos! Em suas cores tão cintilantes de vida —
Assim como no nevoeiro fugaz da misteriosa intriga
Da semelhança que traz com a realidade
As coisas mais lindas que o olho invade
Do amoroso Paraíso – e tudo o que nos pertenceu!
A Esperança que a alegre hora jamais compreendeu.
* Um dos primeiros poemas de Edgar Allan Poe, escrito e revisto entre 1827-1828, que me faz pensar noutras cores para a sua juventude. Os versos apresentam aquele quê de pessimismo romântico, mas hoje tão leve, mais a saudade de algo que parece não pertencer a nenhum momento, parte da presente vida... E há um idealismo mágico de criar paisagens dentro da mente, com o mesmo olhar que tem a infância. É o que arrisco... neste mês de abril. Imagem: Retrato de Edgar Allan Poe, por John A. McDougall, miniatura em aquarela c. 1846.
2 de abril de 2014
O LAGO — A QUEM —
Edgar Allan POE / Peter O'sagaE *
Inda no frescor dos anos, a minha estrela
Assombrar ia o vasto mundo de mácula
Por não poder amar, senão —
Tão amorosamente a solidão
De um agreste lago, com escuras pedras,
E entre as altas torres dos ciprestes confinado.
Contudo quando a Noite jogava seu manto
Sobre todos, como sobre o pranto,
E o vento místico descia
Murmurando em melodia —
Eu então — eu então despertava
Frente ao terror do isolado lago.
Não era aquele o terror do espanto,
Só um trêmulo encanto —
Um brioso pressentimento intocado
A inspirar-me ou obscurecer o significado —
Jamais o Amor jamais — embora fostes Tu o amado.
Ondejava a Morte na maligna água,
E em seu colo um túmulo cavava
A quem o coração quisesse ali ver consolado
A quem imaginasse ser —
A quem a solitária alma pudesse fazer
Um Éden do belo e torvo lago.
* De Edgar Allan Poe, “The Lake – to –.” (1845). O texto possui outras cinco versões registradas desde a publicação de Tamerlane and other poems, em 1827. Tradução: Peter O'Sagae (2014).
Inda no frescor dos anos, a minha estrela
Assombrar ia o vasto mundo de mácula
Por não poder amar, senão —
Tão amorosamente a solidão
De um agreste lago, com escuras pedras,
E entre as altas torres dos ciprestes confinado.
Contudo quando a Noite jogava seu manto
Sobre todos, como sobre o pranto,
E o vento místico descia
Murmurando em melodia —
Eu então — eu então despertava
Frente ao terror do isolado lago.
Não era aquele o terror do espanto,
Só um trêmulo encanto —
Um brioso pressentimento intocado
A inspirar-me ou obscurecer o significado —
Jamais o Amor jamais — embora fostes Tu o amado.
Ondejava a Morte na maligna água,
E em seu colo um túmulo cavava
A quem o coração quisesse ali ver consolado
A quem imaginasse ser —
A quem a solitária alma pudesse fazer
Um Éden do belo e torvo lago.
* De Edgar Allan Poe, “The Lake – to –.” (1845). O texto possui outras cinco versões registradas desde a publicação de Tamerlane and other poems, em 1827. Tradução: Peter O'Sagae (2014).
O LAGO — AONDE ——
Edgar Allan POE / Peter O'sagaE *
Na primavera da vida, era este meu lugar
Aonde do vasto mundo vinha um estigma afogar
De não poder amar dos males o menor;
Tão amável era o ponto ermo
De um esgazeado lago, com pedras duras contido,
E por altos pinheiros entorno protegido.
Porém, quando a noite arremessava o luto
Sobre aquele lugar — como sobre tudo,
E desejava atravessar-me o vento
Com sua música de lamento,
Despertava meu espírito de menino
Para a solidão do lago destemido.
Até então não era o congelante medo —
Mas um atraente encantamento,
E uma sensação sem definições
Brotando de um obscuro entendimento.
Rondava a morte na ofídica onda
E no sumidouro uma sepultura funda
Para quem o consolo dali poderia
Dar à imaginação sombria;
A quem sempre faz o pensamento fixo
Um Paraíso do lago maldito.
* Outro entendimento emerge dos 19 anos com que Edgar Allan Poe escreveu a primeira versão do poema “The Lake” (1827), que traduzo e retraduzo. A palavra ‘lot’ é aqui compreendida como quinhão de terra, lote, lugar; para o texto de 1845, busquei os conceitos de sorte, destino e, por extensão, estrela...
Na primavera da vida, era este meu lugar
Aonde do vasto mundo vinha um estigma afogar
De não poder amar dos males o menor;
Tão amável era o ponto ermo
De um esgazeado lago, com pedras duras contido,
E por altos pinheiros entorno protegido.
Porém, quando a noite arremessava o luto
Sobre aquele lugar — como sobre tudo,
E desejava atravessar-me o vento
Com sua música de lamento,
Despertava meu espírito de menino
Para a solidão do lago destemido.
Até então não era o congelante medo —
Mas um atraente encantamento,
E uma sensação sem definições
Brotando de um obscuro entendimento.
Rondava a morte na ofídica onda
E no sumidouro uma sepultura funda
Para quem o consolo dali poderia
Dar à imaginação sombria;
A quem sempre faz o pensamento fixo
Um Paraíso do lago maldito.
* Outro entendimento emerge dos 19 anos com que Edgar Allan Poe escreveu a primeira versão do poema “The Lake” (1827), que traduzo e retraduzo. A palavra ‘lot’ é aqui compreendida como quinhão de terra, lote, lugar; para o texto de 1845, busquei os conceitos de sorte, destino e, por extensão, estrela...
31 de março de 2014
A CIDADE NO MAR
Edgar Allan Poe / Peter O'sagaE *
Olhai! A Morte elevou-se ao trono
Numa solitária cidade entranhada ao longe
Por entre as escuras sombras do Oeste, aonde
Os bons, os maus, os muito bons e os muito maus
Ao pouso do eterno sono desciam.
Lá, catedrais palácios templos
(sóbrios torreões corroídos pelo tempo!)
Não lembram os nossos monumentos.
Nas águas, esquecidas dos elísios ventos,
Resignadamente sob o remanso do céu
Deitam-se lágrimas ao léu.
Do paraíso, nenhuma aurora rompe
A noite imensa daquela cidade estranha;
Mas no mar outro brilho medonho e lúgubre
Invade as torres silenciosamente –
Os pináculos reluzem em resposta
Acima – os domos – as espirais – os régios salões –
Acima – as muralhas de um babilônico sonho –
Acima os caramanchões sombrios adormecidos
De heras e rosas de pedra esculpidos –
Relicário maravilhoso e amortalhado
Nos frisos onde se tramam e entranham
O vinhedo, a viola, o amor-perfeito.
Resignadamente sob o remanso do céu
Deitam-se lágrimas ao léu.
Torreões e sombras mais e mais se abraçam
Que tudo é um reflexo a pairar oblíquo,
E orgulhosa a Morte com o olhar sorri
Na paisagem abaixo a mergulhar.
Acordam já os templos e as tumbas
Com o bocejo voraz das cintilantes ondas;
Nem a riqueza contida, entretanto,
Nos olhos de diamante das estátuas –
Pode, como mortos de joias honrados,
Vibrar as águas no velho leito imóvel;
Nada, ondulação não há nenhuma!
Ao longo do vítreo desterro –
Nem uma espuma traz o alento
De outro mar, distante, ameno –
Nem um estertor a vir no vento
Pelo oceano sal odiosamente sereno.
Mas, olhai, no ar um acento!
A onda – estala em movimento!
Como empurrando os torreões,
Levando consigo a monotonia –
As cristas sulcam debilmente o dia
Ferindo o vazio Céu com seus clarões.
As ondas agora têm um tom vermelho –
Rugem as horas ao tremor deste espelho –
E quando, meio ao mar, em pranto,
Inda mais fundo, a cidade ruir dolorosamente
O Hades soberano, emergindo,
Dobrar-se-á, reverente.
* De Edgar Allan Poe, “The City in the Sea” (1845).
As versões anteriores do poema receberam os títulos “The Doomed City” (1831) e “The City of Sin” (1836). Em francês, “La Cité dans la mer” por Jean Hautepierre. Outras traduções em língua portuguesa: Oscar Mendes e Milton Amado (1999), Margarida Vale de Gato (2009), Peter O'Sagae (27 de nov. 2013 rev. 31 de mar. 2015).
Olhai! A Morte elevou-se ao trono
Numa solitária cidade entranhada ao longe
Por entre as escuras sombras do Oeste, aonde
Os bons, os maus, os muito bons e os muito maus
Ao pouso do eterno sono desciam.
Lá, catedrais palácios templos
(sóbrios torreões corroídos pelo tempo!)
Não lembram os nossos monumentos.
Nas águas, esquecidas dos elísios ventos,
Resignadamente sob o remanso do céu
Deitam-se lágrimas ao léu.
Do paraíso, nenhuma aurora rompe
A noite imensa daquela cidade estranha;
Mas no mar outro brilho medonho e lúgubre
Invade as torres silenciosamente –
Os pináculos reluzem em resposta
Acima – os domos – as espirais – os régios salões –
Acima – as muralhas de um babilônico sonho –
Acima os caramanchões sombrios adormecidos
De heras e rosas de pedra esculpidos –
Relicário maravilhoso e amortalhado
Nos frisos onde se tramam e entranham
O vinhedo, a viola, o amor-perfeito.
Resignadamente sob o remanso do céu
Deitam-se lágrimas ao léu.
Torreões e sombras mais e mais se abraçam
Que tudo é um reflexo a pairar oblíquo,
E orgulhosa a Morte com o olhar sorri
Na paisagem abaixo a mergulhar.
Acordam já os templos e as tumbas
Com o bocejo voraz das cintilantes ondas;
Nem a riqueza contida, entretanto,
Nos olhos de diamante das estátuas –
Pode, como mortos de joias honrados,
Vibrar as águas no velho leito imóvel;
Nada, ondulação não há nenhuma!
Ao longo do vítreo desterro –
Nem uma espuma traz o alento
De outro mar, distante, ameno –
Nem um estertor a vir no vento
Pelo oceano sal odiosamente sereno.
Mas, olhai, no ar um acento!
A onda – estala em movimento!
Como empurrando os torreões,
Levando consigo a monotonia –
As cristas sulcam debilmente o dia
Ferindo o vazio Céu com seus clarões.
As ondas agora têm um tom vermelho –
Rugem as horas ao tremor deste espelho –
E quando, meio ao mar, em pranto,
Inda mais fundo, a cidade ruir dolorosamente
O Hades soberano, emergindo,
Dobrar-se-á, reverente.
* De Edgar Allan Poe, “The City in the Sea” (1845).
As versões anteriores do poema receberam os títulos “The Doomed City” (1831) e “The City of Sin” (1836). Em francês, “La Cité dans la mer” por Jean Hautepierre. Outras traduções em língua portuguesa: Oscar Mendes e Milton Amado (1999), Margarida Vale de Gato (2009), Peter O'Sagae (27 de nov. 2013 rev. 31 de mar. 2015).
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