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27 de fevereiro de 2019

OS OSSINHOS CROCANTES*

ABC de Edward Gorey, trad. Peter O Sagae



A para Amy que caiu da escada
B para Basílio que os ursos levaram
C para Clarinha que tão cedo se foi
D para Desmond do trenó empurrado
E para Ernesto que engasgou com um pêssego
F para Fanny sugada e seca pela sanguessuga
G para George sob o tapete sem ar
H para Hector que um bandido enforcou
I para Ida que se afogou no lago
J para James que bebeu água sanitária
K para Kate esquartejada a machado
L para Leo que umas tachinhas engoliu
M para Maud pelo mar arrastada
N para Neville que de tédio morreu
O para Olívia atravessada pelo agulhão
P para Prudência pisoteada num bar
Q para Quentin que afundou no atoleiro
R para Rhoda consumida num incêndio
S para Susan que pereceu de soluços
T para Tito que voou em mil pedaços
U para Una que escorregou num bueiro
V para Victor triturado debaixo do trem
W para Winnie encravada no gelo
X para Xerxes devorado por ratazões
Y para Yorick com a cabeça partida
Z para Zilá que tomou muito gin

//.
Fim?
.//




* breves comentários e 26 ilustrações do livro: The Gashlycrumb Tinies: A Very Gorey Alphabet Book (1963), também estão em Dobras da Leitura O'Blog.



29 de novembro de 2018

Orações na Arca

No último dia 18, acordei com o ímpeto de rever e terminar a tradução do ciclo de poemas de Carmen Bernos de Gasztold. Já havia visitado sua Arca em 1992 e em 2013, mas faltavam a Oração de Noé e quatro outros animais, como a Cotovia, a Abelha, ea Cabra e a Pomba. Outros cinco estavam guardados: o Leitão, os Patinhos, a Coruja, o Corvo e a Pomba.

Aora entrego todos os 27 poemas em uma plaquete com 36 páginas, com ilustrações em silhueta. Em 2019, comemora-se o centenário de nascimento de Carmen Bernos de Gasztold (1919-1995).


E assim vamos terminando o ano rumo a dois eventos de publicação independente: a PrintA-Feira II, no Sesc 24 em São Paulo, e a Feira YOYO: tudo que vai, volta, no Sesc Taubaté, nos dias 8 e 9 de dezembro.

Leia abaixo 15 poemas de Orações na Arca, com desenhos feitos com giz pastel seco e oleoso. E espie também como ficou a edição ilustrada com silhuetas (2 no Telhado).

27 de setembro de 2016

Cosme e Damião

Cosme e Damião
tinham também três irmãos...
Paca, cutia e tatu, onde é
que eles estão?

Cosme e Damião,
o mundo é imenso pião!

Cosme e Damião,
pra onde é que vocês vão?
Não levam ouro nos bolsos,
moeda nenhuma nas mãos...


Poema inspirado em uma ilustração de João Lin,
neste dia 27 de Setembro.

17 de agosto de 2016

a Abelha e a Flor e o Vento

A bela abelha
brinca
no brinco-
de-
princesa
branco.

A fina flor
branca
abre-se
em claras
pétalas.

O vento verde
venta
os ciúmes
de quem
zomba.

Que belo ponto
de tinta
preta
que
à fina orelha
zumbe!


* Peter O’Sagae. A abelha e a flor e o vento. In: O Balainho. Boletim de literatura infantil e juvenil. Ano IV, nº 18, novembro de 2003. São José – SC / Joaçaba – SC.

Também publicado em A Aventura da Linguagem – Volume 5, de Luiz Carlos Travaglia, Maura Alves de Freitas e Vânia Maria Bernardes Arruda (Dimensão, 2009).

4 de agosto de 2016

a Libélula vermelha




Céu de outono:
Tão rico, dourado.
Lá, libélula vermelha
Longe, baila, paira.
Parece 
que para.

Quando foi mesmo que eu corri atrás de seu voo?
Quantas vezes a libélula me fugiu... buscou o que é longe?

Será ilusão?
Parece 
que para...
Terá gosto 
de amoras
que eu 
colhi...?

A libélula 
vermelha lá

baila 
na pon
ta 
do 
ba
m
bu

ou 

per
to 
de 
m
i
m
?





* Peter O’Sagae. Uta-no-Iê (Cultura FM, 1992).

Este poema livremente inspirado em uma canção de ninar japonesa foi também integrado ao espetáculo Bazar de Poesia (Dueto Produções, 2012) que circulou por SC e no RS. Em cena, Fernando Benedett e Zuka Rossi. Figurinos, carrinho e adereços: Jolcinei Luis Bragagnolo. Concepção e dir. Fabiano Tadeu Grazioli.

22 de julho de 2016

TRACATRACA ZÁS

a poesia que passa
passa ali pela janela

deixa vir o sanhaço
que deixou a sombra no ombro da árvore
(o céu atrás)

deixa vir aquele trem
que deixou no azul aquela estrada de nuvens
(o céu atrás)

a poesia que passa
passa aqui pela janela

* * *
Peter O. Sagae
passapassapoesia.blogspot.com

6 de janeiro de 2014

Oração da Borboleta


Onde eu estava...
exatamente? Senhor!

Ah! Sim, esta flor, este sol,
obrigada! Vossa criação é tão bela!
Este perfume de rosa...
Onde eu estava... exatamente?

Uma gota de orvalho
pérola de alegria no coração de um lírio!
E eu preciso ir...
Aonde... Eu não sei!
O ventou soprou
em minhas asas as suas fantasias!

Fantasias...
Onde agora estou?

Ah, sim, Senhor,
eu apenas queria vos dizer:
Obrigada, muito obrigada!

Amém!



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


4 de janeiro de 2014

Oração do Pequeno Potro


Meu Deus, a grama é tão verde!
Meus cascos tão cheios de pinotes!
Por que, de repente,
este medo dentro de mim?

Eu corro
e minha crina se enrosca ao vento!

Eu corro
e os perfumes agitam meu coração!

Eu corro
e tropeço
de alegria
nas minhas próprias pernas,
e recolho com os meus olhos,
meus grandes olhos
brilhantes,
a inquietude
que move o mundo todo...

Deus de bondade,
quando vir a estranha noite
cavalgando as dobras da tarde,
ouça-me o rincho triste!
Acenda uma estrela
para vigiar meus passos
e silenciar meu medo.

Amém.



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


2 de janeiro de 2014

Oração do Galo



Não se esqueça, Senhor,
sou eu quem faz o nascer sol!
Eu sou o Vosso servo!
Mas a dignidade de minha tarefa
obriga-me a certa pompa e...
Circunstância!
Noblesse oblige...
Contudo, continuo ser
o Vosso servidor.
Somente não se esqueça...*
Senhor,
com o meu canto,
EU faço o Sol nascer!
E que assim... Sempre seja!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.

* N.T. O galo é tão metido! Nem se dá conta que tropeça na língua e mistura as conjugações verbais. O correto é dizer: "Não vos esquecei, Senhor!"


31 de dezembro de 2013

Oração do Velho Cavalo


Vede, Senhor,
meu casaco já em farrapos,
um velho surrão batido!
Todo o entusiasmo da vida
e todas as minhas forças
entreguei ao trabalho árduo,
sem nada guardar comigo.

Neste momento,
curvo minha pobre cabeça
sobre o peito solitário! 

Deus Misericordioso,
a Vós achego-me
com minhas pesadas pernas:
sou enfim um servo inútil...

Que Vossa bondade,
reserve a mim a morte
suave e breve,
amém!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


29 de dezembro de 2013

Oração do Grilo


Bom Deus,
sou pequenino e retinto
porém, agrecido me sinto
por Vós terdes espalhado,
sobre a humilde vida que levo,
o calor do sol
e o farfalhar de ouro do milharal...

Recebei, indulgente,
o pobre impulso do meu amor
nesta nota musical
que o Senhor faz jorrar de meu coração!

Amém.


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


27 de dezembro de 2013

Oração do Passarinho


Bom Deus,
eu não sei bem como rezar
sozinho!
Mas, por favor,
protege da chuva e do vento
meu ninho.
Derrama o orvalho
nas flores e sementes abundantes
em meu caminho.

Faze mais fresco o azul
e os ramos mais brandos...
E deixa
Tua doce Luz por mais tempo no céu,
enche meu coração de Tua Música
para que eu possa
cantar,
cantar,
cantar...

Eis o que peço, bom Deus,
assim seja!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


25 de dezembro de 2013

Oração do Burrinho



O Deus, que me obrigou
a caminhar pelas estradas
sempre,
a carregar pesadas cargas
sempre,
a sofrer infatigavelmente
sempre!
Dá-me doçura e coragem!

Faça, um dia, entenderem -
qu'eu não quero mais chorar
por não conseguirrr dizer o que desejo
enquanto ouço zombarem de mim!

Faça, um dia, eu encontrar
um róseo e saboroso cardo -
e possa ter o tempo para colhê-lo.

Faça ainda, Senhor,
ver outra vez meu querido irmão
no presépio de Natal.

Amém.




Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


23 de dezembro de 2013

Oração da Girafa


Oh 
Senhor,
eu vejo 
o mundo 
de cima,
mal consigo 
me acos
tumar com 
as coisas 
miú
das!
 
Ou
vi
dizer
, porém,
que
Vós
amais os 
humildes... ?
Dizei-me é mentira!
É mais fácil crer
na Sua grandeza...
 
Eu me alimento
de ideias elevadas 
e gosto tanto tanto
de me ver perto,
bem perto
de Vosso céu!
 
Humildade!
Dizei-me...
O que é isso, Senhor!
Assim seja!



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


21 de dezembro de 2013

Oração da Tartaruga


Paciência,
bom Deus!
Eu já estou
chegando!    

Aceito a natureza
tal como ela é!
Não pretendo criticar
a casa que carrego comigo!
Quanta comodidade!
Mas o Senhor há de concordar
é bastante pesada...

Ah, meu bom Deus, 
peço que jamais se faça 
impenetrável esta couraça,
a minha casa, o meu coração
para o Senhor!
 

Amém.


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


19 de dezembro de 2013

Oração do Peixinho Vermelho


Bom Deus,
eu giro, giro, giro sem fim
neste aquário transparente e frio
sem conseguir encontrar meu próprio caminho!

Ai, Senhor,
livrai-me deste confinamento d’água
e das visões terríveis que através dela
eu vejo!
Dai-me a liberdade das correntes
e das límpidas fontes.
Fazei que eu não seja apenas 
um peixinho
v e r m e l h o
em sua prisão de vidro, mas
uma centelha viva
na mansidão dos regatos!
Que assim seja!


Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.
Ah, outra versão consta no livro de 2018, como Oração do Peixe-Dourado.


17 de dezembro de 2013

Oração do Grande Elefante


Meu Deus,
aqui é o Elefante,
vossa criatura,
que Vos fala...

Quanta vergonha tenho
do meu tamanho, mas realmente
não é minha culpa se meus pesados pés
devastam Vossa floresta.

Ensinai-me
como agir com prudência
e pensar como um filósofo
de modo a manter sempre
minha dignidade, meu equilíbrio,
apreciando, por onde eu for,
a leveza das coisas...
Amém.



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.


15 de dezembro de 2013

Oração do Pirilampo


 
Oh! 
Amado Deus,
o Senhor se importaria
em deixar mais longe um pouquinho
Sua Luz do meu caminho?
É que sou uma lasca de brasa no meio das cinzas
e necessito de Sua Noite imensa tanto, tanto
para meu coração tremeluzir 
um instante sua pequenina estrela: 
é a Esperança que levo a outros corações
como uma fagulha 
de alegria.
Amém.



Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.
Outra versão do poema é apresentada na edição de 2018.


13 de dezembro de 2013

Oração do Cachorro



Senhor,
continuo de olho!
Se aqui eu não estivesse,
quem guadaria a casa dos homens?
Quem vigiaria suas ovelhas?
Quem estaria... por perto?
O Senhor e eu, ninguém mais,
compreendemos
o que é lealdade!

Eles falan assim:
"Cão fiel! Cão corajoso!"
Ah, meras palavras...
Sei que me apego aos afagos
e aos ossos que me atiram
e pareço satisfeito!

Eles realmente acreditam que sou feliz!

Quantos pontapés, au,
igualmente eu recebo!
Não importa.
Estarei sempre por perto...

Senhor,
não me deixe morrer
longe de meus velhos amigos,
antes mesmo de todos
os perigos, vencer!
Auuumém!




Versos de Carmen Bernos de Gasztold (1919),
tradução de Peter O’Sagae (2013) rev. 2018.