31 de março de 2015

A CIDADE NO MAR

Edgar Allan Poe / Peter O'sagaE *

Olhai! A Morte elevou-se ao trono
Numa solitária cidade entranhada ao longe
Por entre as escuras sombras do Oeste, aonde
Os bons, os maus, os muito bons e os muito maus
Ao pouso do eterno sono desciam.
Lá, catedrais palácios templos
(sóbrios torreões corroídos pelo tempo!)
Não lembram os nossos monumentos.
Nas águas, esquecidas dos elísios ventos,
Resignadamente sob o remanso do céu
Deitam-se lágrimas ao léu.

Do paraíso, nenhuma aurora rompe
A noite imensa daquela cidade estranha;
Mas no mar outro brilho medonho e lúgubre
Invade as torres silenciosamente –
Os pináculos reluzem em resposta
Acima – os domos – as espirais – os régios salões –
Acima – as muralhas de um babilônico sonho –
Acima os caramanchões sombrios adormecidos
De heras e rosas de pedra esculpidos –
Relicário maravilhoso e amortalhado
Nos frisos onde se tramam e entranham
O vinhedo, a viola, o amor-perfeito.

Resignadamente sob o remanso do céu
Deitam-se lágrimas ao léu.
Torreões e sombras mais e mais se abraçam
Que tudo é um reflexo a pairar oblíquo,
E orgulhosa a Morte com o olhar sorri
Na paisagem abaixo a mergulhar.

Acordam já os templos e as tumbas
Com o bocejo voraz das cintilantes ondas;
Nem a riqueza contida, entretanto,
Nos olhos de diamante das estátuas –
Pode, como mortos de joias honrados,
Vibrar as águas no velho leito imóvel;
Nada, ondulação não há nenhuma!
Ao longo do vítreo desterro –
Nem uma espuma traz o alento
De outro mar, distante, ameno –
Nem um estertor a vir no vento
Pelo oceano sal odiosamente sereno.

Mas, olhai, no ar um acento!
A onda – estala em movimento!
Como empurrando os torreões,
Levando consigo a monotonia –
As cristas sulcam debilmente o dia
Ferindo o vazio Céu com seus clarões.
As ondas agora têm um tom vermelho –
Rugem as horas ao tremor deste espelho –
E quando, meio ao mar, em pranto,
Inda mais fundo, a cidade ruir dolorosamente
O Hades soberano, emergindo,
Dobrar-se-á, reverente.


* De Edgar Allan Poe, “The City in the Sea” (1845).
As versões anteriores do poema receberam os títulos “The Doomed City” (1831) e “The City of Sin” (1836). Em francês, “La Cité dans la mer” por Jean Hautepierre. Outras traduções em língua portuguesa: Oscar Mendes e Milton Amado (1999), Margarida Vale de Gato (2009), Peter O'Sagae (27 de nov. 2013 rev. 31 de mar. 2015).