26 de setembro de 2016

6. O Lamento



 
Apenas lanço perguntas
rumo ao horizonte
sem respostas ou vozes amigas
que possam me consolar.
Vou fazer a balada
do Esplanada
E ficar sendo o menestrel
De meu hotel

O silêncio é uma paisagem constante.

Mas não há poesia num hotel...

Sou a jovem que suspira
olhando as montanhas...
Há poesia
na dor
na flor
no beija-flor
No elevador.

Que distância!
Não choro
porque meus olhos ficam feios.



Eu gosto dos santuários
das viagens e de alguns hotéis.

Deixo a chuva
regar a terra como o pranto e
todos escutam a voz da noite
cheia de ladeiras acesas.
Rezo
com o sorriso das procissões!

Vou agora triste no trem
com aquela paixão no coração
vou emagrecer junto às palmeiras
malditas da fazenda

E o gru-gru dos grilos grelam gaitas
E os sapos sapeiam sapas sopas
No alfabeto escuro dos brejos
Vogais
Lampiões e lamparinas
E tu surges
através de um fox-trot errado e de lenda

Dentro de mim, a volta
já se prepara. A noite me parece
um violino desafinado,
acho que ando em desalinho...

Mas isto tudo é outro sonho
conduzido pelas palavras que
você me deixou.

Legado de espera,
Vida suspensa.

Bestão querido, Estou sofrendo!
Sabia que ia sofrer...



* Peter O’Sagae. Peer Gynt – 6. O Lamento.
Do roteiro original inspirado na música de Edvard Grieg para a peça de Henrik Ibsen. Versos incidentais de Oswald de Andrade. Rádio USP FM, 1996. Noites poéticas, 1997.