26 de setembro de 2016

5. A Princesa sem Alma


Alguém hoje
abranda suas mágoas?


Deveria eu confessar
ter conhecido Anitra, 
a bela escrava do Egito 
com olhos de tâmara
e ouro que tanta fome 
me davam?
Peer!!!
Talvez não! Talvez sim!
Anitra era ágil na dança 
que fazia ao redor de meu corpo...

Penso em toda a sorte
de prazeres
que as terras distantes
oferecem aos viajantes
e receio,
estremeço,
esmoreço!

Anitra era insistente
e encantadora
nas histórias que me dava
aos ouvidos... Era uma princesa 
sem alma, contava a mim,
contava talvez a todos os homens
ricos
quando se escondia a lua atrás 
das tendas.
Ela tampouco se importava
em possuir uma vocação para 
serpente...
A opala do meu turbante
valia bem mais que as promessas 
do Além.

Contam os mais velhos
da vivacidade de certas mulheres!

Pensei em noites 
ocultando braços e pernas, 
raptos!
Pensei formar meu próprio serralho
com aquela vítima... indefesa.
Anitra! Anitra!
O escuro, 
o alaúde e 
a serenata
para o harém de uma escrava só.

Contam mais os velhos...
os cotovelos se encontram
se acotovelam e se apalpam
mãos descem na calada da lua.


Contudo nem tudo
é perfeito, quão suave
eu via os gestos da bailarina
mais estrondoso 
era o ronco de Anitra! 

Adeus, encantos
e oásis pela imensidão
do oceano de areia!



* Peter O’Sagae. Peer Gynt – 5. A Princesa sem Alma.
Do roteiro original inspirado na música de Edvard Grieg para a peça de Henrik Ibsen. Versos incidentais de Oswald de Andrade. Ilustração de Edvard Munch: Anitra dancing, Peer watching (Act 4), c. 1930. Rádio USP FM, 1996. Noites poéticas, 1997.