10 de agosto de 2016

Hyottoko da boca torta

Um velho e sua esposa moravam em uma cabana distante. Ele era lenhador e, todas as manhãs, subia a montanha para trabalhar. Porém a velha era amiga da preguiça e jamais saía de casa, passava o dia inteiro virada do avesso. Ah, se ela fosse lavar roupas no rio como as boas velhas das antigas lendas costumavam fazer, talvez visse algo diferente ou tirasse a sorte de encontrar um pêssego, ou um melão, descendo pela correnteza. Mas, não!
A sorte estava mesmo do lado do velho.
Certa vez, enquanto ele cortava lenha, ouviu uma voz ao longe que pedia — Dê-me lenha, lenhador! Era uma voz rouca, fraquinha, quase um assovio no meio das árvores. — Dê-me lenha, lenhador! O homem saiu procurando — Dê-me lenha, lenhador! E descobriu que o gemido vinha de um buraco no chão. O velho colocou um pedaço de lenha na boca do buraco e — vupt, a lenha desapareceu. Curioso para entender o que se passava, o lenhador abaixou-se para espiar e — vupt, também desapareceu.
Lá embaixo tava um calor danado, tudo ardia e ofuscava a vista. O velho logo compreendeu ter chegado ao santuário do deus do fogo. Ho-Musubi disse assim:
— Obrigado, pela madeira que me alimenta. Em troca, receba este pacote.
E o velho voltou para casa.

* * * 

A mulher preguiçosa logo esticou as mãos. Dentro do pacote, encontram apenas um bebê com a careta assanhada. O velho sorriu, a velha torceu o nariz. Que incomodo aquele traste de gente! Contudo o lenhador quis acolher o menino como um filho e deu-lhe o nome de Hyottoko.
Inquieto, Hyottoko passava horas mexendo no próprio umbigo. Fazia bico com a boca e soprava, soprava e ficava a cada dia mais com a boca torta. O pai pedia e às vezes ralhava para ele parar de brincar com o umbigo, porém Hyottoko não parava. E mexia e soprava, mexia e soprava até que o umbigo inchou e ficou vermelho como uma brasa acesa. A velha fez pouco caso. O velho bateu de leve com o cachimbo no umbigo do menino. Então, caiu uma moeda de ouro. O velho bateu outra vez e caiu outra moeda. Aí a velha se interessou...
Todas as manhãs, o lenhador passou a bater três vezes no umbigo do filho, entretanto, sempre satisfeito, continuava indo trabalhar. Um dia, ele longe, a velha preguiçosa em casa... Pegou um cachimbo bem grande e foi atrás do menino. “Agora ou nunca eu pego você e vai chover muitas moedas de ouro!” Hyottoko correu, correu e desatinado pulou dentro da boca do forno e — sumiu.
Quando o velho voltou e não encontrou mais o filho em casa, ficou muito triste. Fez uma máscara igual à careta do menino para colocar na pilastra atrás do forno... E hoje, para ter boa sorte, muita gente pendura perto do fogão uma máscara que lembra o Hyottoko da boca torta.


* Peter O’Sagae. Onze velhos bacanas e outros contos do Japão (2007).